O Mundial 2026 veio e foi. A Seleção Portuguesa de Futebol aguentou-se na competição até aos oitavos-de-final, onde caiu aos pés da sua congénere espanhola. Congénere essa que acabaria por vencer o campeonato, depois de derrotar a Argentina por uma bola a zero na final – para alívio de uma grande parte do mundo futebolístico. Este foi um Mundial longo (o que era de esperar tendo em conta o alargamento da competição), que até teve os seus momentos, mas que deixou muita gente com um amargo de boca, eu incluída.
Mas vamos por partes.
Há muito que aqui o estaminé deixou de cumprir as suas próprias regras. No entanto, duas das tradições daqui do blogue incluem comentar os equipamentos da Seleção, bem como músicas de apoio. Queria começar o texto por aí. Foge um pouco ao tema, sim, mas começamos com coisas boas antes de passarmos à amargura e à frustração.
Em 2025, os equipamentos da Seleção Portuguesa passaram a estar sob tutela da Puma. Nesse ano, lançaram um equipamento principal não muito diferente do de 2024, para não destoar. Só o alternativo é que foi novo – não tenho muito a dizer sobre ele. Não é feio, mas também não é espetacular.
Para a coleção de 2026, adotaram um tema marítimo. Uma inspiração algo óbvia, tendo em conta a nossa História e cultura, mas gosto. A água é o meu elemento e adoro tudo o que tenha a ver com o mar. O equipamento principal ficou parecido com o de 2014, um dos meus preferidos. Só tenho pena que tenham acabado com os calções verdes.
A camisola alternativa é que está linda. Em tons de branco e verde-água, com desenhos de ondas. Gosto também do pormenor das letras e números – e o símbolo da Puma – em vermelho-escuro. Comprei uma para mim na feira – se não for oficial, é uma imitação muito boa.
Quanto a música, aconteceu uma coisa engraçada. A Federação Portuguesa de Futebol lançou um tema oficial, como o costume. E, como o costume, é uma música mediana, que entra por um ouvido e sai por outro. Por sua vez, nas ruas, um grupo de amigos num barco criou um cântico baseado na Canção do Engate, de António Variações. Não lhes tiro o mérito pela criatividade, pela letra que criaram e encaixaram numa música já existente. Todavia, a canção original é possivelmente uma das mais bonitas da música portuguesa – se não for do mundo inteiro. Com aquela melodia, eles podiam fazer uma letra com o folheto informativo do Brufen e soaria bem.
O problema é que a letra é demasiado específica para este Mundial. Essencialmente lista o onze habitual, refere o Diogo Jota e o irmão André Silva, exprime uma fé em Roberto Martínez que, vá lá, nove em cada dez adeptos nunca sentiu. Ficou obsoleta a partir do momento em que o árbitro apitou três vezes no Portugal x Espanha.
O que é uma pena.
Os Homens do Barco de início fizeram apenas um Tik Tok que pegou fogo. Quando demos por ela, estava a ser cantada nas bancadas do Magalhães Pessoa, durante o particular com a Nigéria. Por outras palavras, o que pegou foi algo que veio do povo e não de uma equipa de marketing. Acho lindo.
O que, por sua vez, me leva a uma das minhas queixas em relação à Seleção – algo que já tinha sentido antes, a propósito do Euro 2024. Nós, os adeptos, cumprimos melhor o nosso papel, fora das quatro linhas, do que os próprios jogadores. Por um lado é mérito nosso, porque adoramos a Seleção – sobretudo as comunidades de emigrantes. Por outro, a própria Federação, a Comunicação Social, os patrocinadores encorajam tais iniciativas.
O que demonstra algo a que voltaremos adiante: a Federação preocupa-se mais com patrocínios e vendas de camisolas do que com resultados em campo.
Queria agora deixar um apanhado da minha experiência com os jogos da Seleção neste Mundial. No dia do jogo com o Congo, saí do trabalho à hora a que o jogo começou. Ainda estava no carro, ouvindo o relato na rádio, aquando do golo de João Neves – deu para cumprir o desejo antigo que celebrar um golo em Europeus ou Mundiais com buzinadelas. Tirando isso, nada mais a assinalar – daqueles jogos em que um golo demasiado cedo se revela traiçoeiro.
Durante o jogo com o Uzbequistão, estava a trabalhar (e por acaso pediram-me desculpa por me colocarem naquele horário). Não que me tenha importado – não deixa de ser uma experiência. Quando possível, íamos vendo a transmissão online do jogo, quer no YouTube, quer no site da TVI (este passou na TVI, certo?). Aquando do segundo golo, estava a passar junto à porta da farmácia. Assustei-me quando a rua inteira celebrou. Por outro lado, aquando do auto-golo, eu e as minhas colegas estávamos à volta do computador vendo a repetição, tentando perceber quem tinha marcado. Cinco golos marcados, diz que podiam ter sido mais. No fim do jogo, Cristiano Ronaldo pôs-se a gritar para uma câmara: “I’m back! I’m back!”...
…e nunca mais se viu o mesmo ímpeto neste Mundial. Portugal só soube ser forte perante uma das equipas menos fortes do campeonato.
O jogo com a Colômbia foi à meia-noite e meia, felizmente de sábado para domingo. À hora do apito inicial, já estávamos Apurados para a fase seguinte. Só faltava saber se ficaríamos em primeiro ou segundo – ou terceiro, caso, as coisas corressem bizarramente mal para o nosso lado.
Não correu bizarramente mal, mas infelizmente passou-se aquilo que eu previra antes do jogo, como poderão ler aqui: um empate com uma exibição fraquinha. Tudo o que fizemos foi defender – o Diogo Costa e os centrais tiveram oportunidades de sobra para brilhar. Os sustos que íamos apanhando com os colombianos na nossa baliza sempre davam para me manter acordada – e mesmo assim acho que dormitei um bocadinho no início da segunda parte. Atacar é que, vá lá, só um bocadinho durante a primeira parte.
Já em tempo de descontos, os colombianos finalmente conseguiram enfiar a bola na nossa baliza. O que nos valeu foi que Davinson Sanchez tinha os dedos dos pés em fora de jogo. Tecnicamente bem anulado, de acordo com as regras… mas não é ridículo? Em que é que aquilo lhes dava uma vantagem injusta?
Suponho que seja esta uma das desvantagens do VAR e de outras tecnologias no futebol: tornarem-no mais papista do que o Papa. Mas isso é debate para gente mais qualificada do que eu, sigamos em frente.
O jogo com a Croácia terá sido porventura o mais interessante do nosso percurso neste Mundial – ainda que não por causa da qualidade do nosso jogo. Foi de novo tarde, à meia-noite, desta feita num dia de semana – mais complicado de lidar. A mim valeu-me a onda de calor que atravessávamos na altura – ajudou a manter-me acordada.
Por outro lado, era o primeiro aniversário da morte do Diogo Jota e do irmão. Perdemos aquele jogo seria deprimente – mal por mal, ainda bem que não aconteceu.
Até foi um jogo mais ou menos equilibrado. Nós por cima na primeira parte, mexendo-nos mais do que habitual, incapazes de marcar. A Croácia entrou melhor na segunda parte e acabou por marcar primeiro. Chegaram a marcar segunda vez, mas o golo foi anulado por fora-de-jogo. Cristiano Ronaldo teve também um golo anulado, mas sempre converteu um penálti depois – por outras palavras, neste fez o suficiente para justificar ter jogado. Outro milagre foi a sua substituição, já com Gonçalo Ramos em campo – claro que não fez boa cara mas, tirando as Ronaldettes, quem se rala?
Ainda antes desta substituição, a Croácia teve ainda outro golo anulado por fora-de-jogo – já nem me recordava dele, só me lembrei quando revi o resumo, na preparação deste texto. Caricato, realmente.
Com todos estes golos anulados, a segunda parte teve dez minutos de compensação. Eu não queria ir a prolongamento. Não tanto pelos motivos habituais – a incerteza em relação ao resultado final, o desgaste acrescido numa fase crítica do campeonato – mais porque… queria ir para a cama.
Foi então que Gonçalo Ramos se lembrou de marcar. Com toques de brilhantismo – ensanduichado entre dois croatas e mesmo assim conseguiu saltar e rematar de cabeça. As minhas cordas vocais agiram por conta própria – espero não ter incomodado os vizinhos. Mas foi daqueles gritos de “GOLO!” que saem mesmo do coração, de alívio, de alegria. O Gonçalo diria mais tarde “se precisarem de um golo nos últimos minutos, podem chamar o Gonçalo Ramos”. O miúdo é uma dádiva – merece bem melhor, é demasiado humilde e altruísta para o seu próprio bem.
Mais sobre isso adiante.
Naturalmente, depois desta só queria o apito final. Mas o jogo nunca mais acabava, mesmo depois de findos os dez minutos. Suponho que o árbitro tenha acrescentado mais tempo de compensação por causa do golo. Claro que, naquele momento, tudo o que sabia era que o jogo nunca mais acabava, às tantas os croatas ainda marcavam.
E de certa forma não me enganei. Os croatas marcaram mais ou menos aos doze minutos de compensação. Por um momento caiu-nos tudo… mas o VAR entrou em ação e anulou o golo, uma vez mais por fora-de-jogo. Outra decisão controversa, para usar um eufemismo. Durante algum tempo fez-se a piada de que a bola teria rasado a cabeleira de Igor Matanovic – brincadeiras à parte, acho que os sensores da bola não detetariam toque de cabelo. Dito isto, uma vez mais, pode-se debater se aquele toque influenciou assim tanto a jogada.
Após esta decisão, os adeptos croatas passaram-se, ao ponto de arremessar objetos para dentro do campo. Vocês sabem que eu detesto este tipo de comportamentos por princípio mas, aqui entre nós, eu compreendia a frustração. Não só perdiam a luz ao fundo do túnel, mas também era o terceiro golo dos croatas a ser anulado por fora-de-jogo. Que loucura.
Já conto muitos anos disto, mas não me recordo de um final de jogo tão caricato. Queria ir para a cama, mas estava demasiado agitada após dos eventos daquele longo tempo de compensação. Precisei de uns minutos para descomprimir – aproveitei para atualizar a página do Facebook.
Como já referi noutras ocasiões, não se torna mais fácil.
À Croácia seguiu-se a Espanha. Seria sempre difícil independentemente das circunstâncias, pelo nosso historial. Mesmo assim, podíamos – devíamos – ter feito melhor. Como já tínhamos feito no ano passado. Diria que começámos a perder o jogo quando Nuno Mendes se lesionou – Lamine Yamal acabou por aguentar mais tempo no duelo. De resto, outro jogo em que tudo o que se fez foi defender, sobretudo na segunda parte.
Sem surpresa, a Espanha acabou por marcar. Na transmissão da RTP, o narrador (não me recordo do nome dele e não consegui descobrir) deixou cair a isenção e pôs-se a criticar forte e feio as opções de Roberto Martínez (embora sempre com profissionalismo). Por as substituições já terem sido esgotadas, por Cristiano Ronaldo ainda estar em campo e, aparentemente, jogar por decreto, por Gonçalo Ramos não ter saído do bando apesar de nos ter salvo o couro no jogo anterior, por nomes como Trincão ou Francisco Conceição (que também já decidiram jogos no passado) não terem uma oportunidade sequer.
(Posso ou não ter misturado opiniões minhas nesta paráfrase.)
Como em várias outras ocasiões semelhantes, Portugal ainda tentou correr atrás do resultado, mas acordou tarde demais. No fim, viemos recambiados para casa.
Tal como aconteceu há dois anos, aquando do Euro 2024, não vou fingir que isto foi uma surpresa. Não deixei nunca de alimentar uma esperança secreta de que só regressássemos a casa a 20 de julho. Mas tinha noção de que não andávamos a jogar para isso. Brilharetes de Diogo Costa e picuinhices das tecnologias de futebol não chegam para ganhar um Mundial. Toda a gente diz o mesmo: falta uma ideia de jogo. Há quem diga que não a temos há pelo menos uma década – nem mesmo quando ganhámos o Euro 2016.
Como também já vai sendo habitual nestas ocasiões, a comunicação deixou-me com vontade de dar um berro. Bruno Fernandes, por exemplo, a dizer que “parece que temos de ser sempre superiores a toda a gente” – é preciso ter lata. Passaram semanas, para não dizer meses, a falarem de ganhar este Mundial pelo Ronaldo e/ou pelo Diogo Jota. Como esperavam fazê-lo sem serem superiores a um dos maiores candidatos ao título ?!
Nunca fui grande fã da típica conversa fiada de “levantar a cabeça”, mas se a alternativa é esta…
Os dois que mais me irritaram, no entanto, foram Cristiano Ronaldo e Roberto Martínez. O primeiro dizendo que ganhar o Europeu em 2016 equivale a ganhar um Mundial fede a “estão verdes, não prestam”. Claro que se pode debater qual das duas provas é a mais difícil em geral. Mas penso que não é a primeira vez que refiro aqui que, historicamente, Portugal costuma sair-se melhor em Europeus do que em Mundiais, por motivos variados.
Por sua vez, um comentário aleatório num vídeo do YouTube ajudou-me a perceber o problema com Roberto Martínez: ele é um político, mais do que um treinador. Outros saberão explicar melhor a ideia do que eu. Eu cá prefiro apontar que ele comete algo a que ganhei asco nos últimos meses, ou anos, precisamente da parte de políticos e outras figuras de autoridade: falta de noção. Dourar a pílula até chegar à mentira, como se vivessem noutro planeta ou quisessem fazer de nós parvos. Gianni Infantino por exemplo, conforme comentámos antes e voltaremos a comentar mais à frente.
Martínez passou o Mundial todo a atirar-nos areia para os olhos, a garantir que estava tudo a correr conforme o planeado, sem admitir um erro que fosse. Fizemos uma bela exibição perante o Congo, perante a Colômbia. Oh não, ganhar o grupo nunca seria uma vantagem. Jogos perfeitos no Mundial não existem. Eu sei que queremos sempre ganhar todos os jogos por 3-0, mas no futebol nem sempre é possível, meninos. A Espanha venceu-nos e agora vamos para casa, mas não falhámos, tentámos ganhar o jogo até ao último minuto. No futebol, a sorte também faz parte. A bola bater na barra e entrar ou não entrar. Estou muito orgulhoso.
– Mas orgulhosos de quê? – insurgir-se-ia Ricardo Quaresma pouco depois. Quando a crítica parte de alguém que já esteve naquela posição, que está mais predisposto para empatizar com os jogadores (vários dos quais antigos colegas de equipa), sabemos que é a sério.
Já haviam indicações de que Martínez sairía depois do Mundial. Mesmo que não fosse esse o plano, já não existiam condições para ele continuar, na minha opinião. Não desvalorizo a Liga das Nações do ano passado, quanto mais não seja porque foi o último jogo, o último título, de Diogo Jota. No entanto, acabou por se repetir o padrão que eu já tinha detetado no início do seu mandato: para cada conquista um senão. Eu até simpatizava com Martínez, pela forma como procurou aprender português e adaptar-se a nós, à nossa cultura. Mas, lá está, era ele a ser político. Precisávamos de um treinador.
Não deixará saudades.
Ainda assim, chocou-me um bocadinho a maneira como seguimos em frente tão depressa. Portugal deixou o Mundial numa segunda-feira. Na sexta-feira seguinte – o dia em que jogaríamos nos quartos, nove dias antes da final do Mundial – estávamos a apresentar o novo Selecionador. Jorge Jesus.
Aqui entre nós, não sei muito bem o que pensar, o que sentir. Não morro de amores pelo homem, mas é um treinador experiente, competente. Mais do que Martínez, penso eu.
A ver como corre. Na pior das hipóteses, sempre nos divertimos com os trocadilhos e eventuais momentos caricatos.
Notas finais sobre a participação portuguesa no Mundial… pois, praticamente nada que valha a pena recordar. Até o Mundial 2022 foi melhor do que isto.
Num dos seus vídeos sobre este campeonato, o Gonzaal apontou que os nossos Mundiais acabam por seguir todos o mesmo guião, com poucos desvios. Jogos medianos, uma vitória generosa para nos dar ilusões – ou, no caso do Mundial 2018, um empate a três com a Espanha, o que não deixou de ser um feito – eliminação numa fase precoce do mata-mata. Noutro canto da Internet, assinalaram que o nosso percurso neste Mundial foi muito parecido com o de 2010: empate contra uma equipa africana na nossa estreia, goleada perante uma equipa asiática, empate a zeros perante uma equipa sul-americana, eliminados nos oitavos perante a Espanha. Espanha essa que acabaria por ganhar o Mundial.
De qualquer forma… é deprimente. Todos os nossos Mundiais correndo do mesmo modo. Não que fosse melhor há uma geração ou duas, quando nem sequer nos Qualificávamos, mas… Por estes dias, tenho dado graças por ter nascido na altura certa para me recordar da campanha que nos deu o quarto lugar no Mundial 2006 – mesmo que ainda fosse um bocadinho novinha demais para lhe dar o devido valor.
Queria agora falar sobre o Mundial como um todo, depois de ter comentado extensamente o contexto do mesmo no texto anterior. Ainda tinha alguma esperança de que as circunstâncias fora de campo não afetasse o jogo em si. Durante algum tempo foi isso que aconteceu… mais ou menos. A maneira como trataram a seleção iraniana e a egípcia. O árbitro somali, o melhor do continente africao, impedido de entrar nos Estados Unidos.
Tirando isso – ainda que, confesso, nem sempre estivesse a acompanhar de assim tão perto – a ideia que eu tenho era de que estava a ser um Mundial tão bom como o costume. Por exemplo, tal como toda a gente, vibrei muito com Cabo Verde. Mas também com pequenos momentos, como este – diz que o México foi um bom anfitrião em termos de fiesta.
Sobre as pausas de hidratação, eu detestei-as um bocadinho menos do que a maior parte das pessoas. Só mesmo porque as seleções podiam aproveitar aqueles minutos para falarem com a respetiva equipa técnica e ajustarem estratégias.
E, confesso, durante o Portugal x Croácia, a segunda pausa deu jeito para ir ao frigorífico buscar a cidra que o jogo estava a pedir.
Em relação ao intervalo da final (que não vi), concordo a cem por cento com a opinião geral. É certo que gosto da Shakira e gostei de ver o Ted Lasso e o Coach Beard… mas não havia necessidade! O futebol nunca foi desprovido de concertos ou outros espetáculos (por exemplo, os meus adorados Linkin Park na final da Champions do ano passado), mas sempre foi feito antes do início dos jogos. Fazerem-no no intervalo – que teve de ser mais longo do que o costume – foi só mesmo para dar graxa aos americanos. Ninguém pediu. Foi uma estupidez.
Ainda assim, penso que as pessoas até tolerariam isto, não fosse o que acontecera antes. Falo, claro, do caso Balogun. Uma das muitas ocasiões com o presidente dos Estados Unidos em que ele nem sequer esconde a corrupção. O problema maior são as pessoas que não lhe dizem “não”. Gianni Infantino é claramente uma dessas pessoas, um de muitos lambe-botas (para não lhe chamar algo pior).
Sinto que foi mesmo aí que se quebraram as poucas ilusões que ainda existiam sobre o Mundial. A juntar-se a isso, as favoritas dos adeptos (Cabo Verde, Noruega…) foram sendo eliminadas, iam ficando os tubarões. Por altuas das meias-finais, estava a torcer pela Inglaterra, o mais parecido que sobrava a um underdog. A Inglaterra!
E, como toda a gente, não queria de todo que a Argentina ganhasse – pelos comportamentos racistas, pela maneira como pareciam estar a ser levados ao colo pela FIFA. Eles ainda se queixaram de uma suposta campanha anti-Argentina. Eu até podia ir nessa, um pouco – toda a gente sabe como funciona a Internet, os julgamentos em praça pública. Mas o mundo inteiro viu a reação deles à derrota na final.
Felizmente, o futebol corrigiu-se a si mesmo. Depois da anulação do castigo de Folarin Balogun, a seleção americana acabou eliminada de forma categórica pela Bélgica. Mais tarde, os jogadores americanos admitiram que a atitude do presidente lhes saiu pela culatra – o barulho provocado pela decisão terá enervado a equipa, contribuindo para a derrota.
Desculpa esfarrapada? Terá um fundo de verdade? Eu até sentiria alguma pena dos americanos… Mas também quantos deles terão votado em Trump?
A Bélgica nem sequer se manteve muito tempo no Mundial. Foram eliminados pela Espanha no jogo seguinte. Mas tinham um papel a cumprir neste Mundial e cumpriram-no.
Mais tarde, felizmente, foi a Espanha a ganhar. Trump teve de entregar o troféu à seleção de um dos (poucos) países que lhe têm feito frente. Tentou repetir a mesma gracinha do ano passado, mas desta feita Infantino teve vergonha na cara suficiente para afastá-lo dali assim que possível.
Em suma, um Mundial que deixou o mundo do futebol com um amargo de boca, como disse acima – de uma maneira tanto quanto sei inédita. Sinto que a FIFA finalmente cruzou uma qualquer linha invisível, depois de anos e anos de atitudes questionáveis.
Infantino tem-se fartado de meter água desde o Mundial. Cerca de uma semana depois do fim do mesmo, deixou uma mensagem inacreditável, em que basicamente acusou os críticos de “espalharem ódio”. Eu nem tenho palavras. Outra ideia brilhante foi a criação de uma empresa que detivesse os direitos das principais competições da FIFA. Consta que isto terá sido influenciado, uma vez mais, por Trump – um dos investidores principais seria um familiar dele. O mundo do futebol atirou-se ao ar, com razão. A UEFA chegou a ameaçar um boicote a todas as provas da FIFA, incluindo o Mundial. Infantino já recuou na proposta, entretanto.
Tenho estado a acompanhar isto tudo com um balde de pipocas na mão. Acho alguma piada à indignação da UEFA. Como se eles fossem menos corruptos, como se eles não tivessem também passado os últimos anos alargando provas já existentes, criando outras, inventando mil e uma outras maneiras de encherem os bolsos à conta do futebol europeu. Por um lado, tenho alguma esperança de que seja agora que as coisas mudem. Por outro, receio que aconteça o mesmo que aconteceu há cerca de uma década, quando Joseph Blatter caiu: apenas uma mudança de nomes na liderança, os problemas estruturais inalterados.
A ver o que acontece – as eleições da FIFA serão em março do próximo ano.
Quanto a nós, aqui no blogue, depois desta vamos hibernar outra vez. Às vezes sinto-me culpada por já não ter a mesma disponibilidade, por o blogue já não me entusiasmar o suficiente para escrever nele com mais regularidade do que isto. Mas depois vejo que também nenhum dos protagonistas parece ralar-se muito. Como disse acima, a Federação só quer vender camisolas e agradar aos patrocinadores. Cristiano Ronaldo insiste em voltar porque todos lhe afagam o ego no seio da Seleção. Aos outros jogadores já não lhes sobra energia para se ralar com a Seleção ao fim de épocas demasiado cheias nos clubes. Ou então, já estão tão habituados aos grandes palcos do futebol, a estarem presentes em todos os Europeus e Mundiais, que já os tomam como garantidos.
Penso que já não é a primeira vez que refiro aqui que muitas vezes preferia torcer por uma equipa mais pequena e menos prestigiada. Cientes da sua própria sorte, procurando o mais possível aproveitar as oportunidades que conquistaram, capazes de se agigantar na altura certa. Como, lá está, Cabo Verde ou a Noruega.
Se mais ninguém se rala além dos próprios interesses, também não preciso de fazê-lo. Não se não me for conveniente, não se não me der gozo que chegue.
Dito isto, diz que o próximo jogo da Seleção será em Alvalade – contra o País de Gales, o primeiro da fase de grupos da Liga das Nações. Quero tentar ir. As autoridades do futebol estão todas corrompidas, os protagonistas da Seleção estão-se nas tintas, mas a massa adepta continua a ser melhor que no futebol dos clubes. Nós fazemos a festa. E, mesmo com todo este recente cinismo da minha parte, continua a ser mais divertido ser otimista, esperar pelo melhor, pelo menos enquanto o sonho for possível.
Obrigada por lerem, de qualquer forma. Mesmo que o blogue fique parado, hei de continuar a atualizar a página do Facebook sempre que se justificar. Até uma próxima.